Uma história veneziana na poesia inglesa de Lord Byron...

 Recentemente adquiri a edição bilíngue Beppo: Uma história veneziana; um livro de poesia de Lord Byron, autor inglês que teve uma vida curta mas com obras que se perpetuaram até os dias atuais, dada a polêmica de sua vida e escritos...

O livro é uma versão da Saraiva de Bolso e traz um texto de apresentação falando sobre a vida de Byron e seu estilo de poesia, bem como uma carta ao final, destinada a John Murray, seu editor e amigo... Já na apresentação, há vários detalhes sobre o processo de criação de Beppo e de algumas de suas outras obras... Para entender Beppo, é necessário conhecer Byron, o homem e poeta. O texto fala sobre a introdução do escritor na literatura brasileira, e sua influência mórbida na obra de Álvares de Azevedo. O fato de Byron em certa ocasião ter usado como taça de vinho um crânio humano, fez com que se criasse em torno de seu nome um 'romantismo de sepulcros', e seu nome figura como lenda orgiástica-fantástica entre os escritores do gênero que lhe sobrevieram... Mas já na Primeira Guerra Mundial, a poesia de Byron se torna anacrônica, devido aos movimentos da escola Moderna que surgiram nos primeiros anos do século XX. 


Ele se tornou conhecido devido aos poemas satíricos Don Juan, The vision of Judgment e Beppo, o qual tenho em mãos. Sua obra teve impacto sobre gênios da literatura mas o seu legado maior se deve ao fato de que sua vida mesclou-se aos escritos, como um sendo parte do outro, pois para ele era impossível criar algo que não fosse espelhado em algum aspecto de si mesmo. A vida e a arte de Byron estavam indesatavelmente ligadas. Há um poder descritivo e irônico em suas narrativas, embora o 'lugar-comum' se faça presente. 

Fazendo uma analogia com Shakespeare, o texto faz um paralelo entre ambos, em que Shakespeare recria de maneira poética experiências e sensibilidades humanas de maneira diversificada, e Byron não concebia experiências que não estivessem ligadas a ele. Ele não permitia vivências alheias em sua obra. Havia um pouco de si em cada verso ou linha... Para compreendermos e apreciarmos Byron, faz-se necessário conhecer o homem por trás do livro... No caso de Shakespeare, saber sobre sua vida pessoal era irrelevante para apreciação de sua obra...

Melancolia, morte e ironia são constantes na obra de Byron. A desestrutura familiar dos primeiros anos, amores inconstantes - com mulheres e homens-  [e até um incesto com sua meia-irmã Augusta] podem ter servido como pano-de-fundo para a profundidade de seus poemas.  Outro fator interessante que descobri sobre o autor é que ele pode ter sido um dos precursores que utilizaram o clichê do personagem "renegado" que se redime de paixão pela 'mocinha', que descobre o segredo ou passado tenebroso do personagem mas o perdoa  - arquétipo presente em várias obras do que chamamos literatura popular e que - asseguro com firmeza, - já é fórmula gasta no mercado literário. Essa construção de personagem, longe do criativo e original, não passa de uma sombra do herói byroniano, criado na época em que o Romantismo aflorava na literatura.

Escândalos povoaram os últimos anos do poeta. Um casamento desfeito, foi amante de dezenas de mulheres quando saiu da Inglaterra em definitivo e estabeleceu-se na Itália. Foi nesse período que surgiu Beppo, diferindo das narrativas anteriores, com um quê a mais de satírica e nada romanesca. O narrador tece um panorama da sociedade que habitava em Veneza, mesclando farpas dirigidas à sua pátria mãe e as suas instituições, bem como aos poetas ingleses, seus contemporâneos. Já em Beppo podemos encontrar elementos presentes na futura narrativa de Don Juan: rimas cômicas, tom coloquial, tendo na voz do narrador uma língua ferina e que se perde em evasivas... 

Em parte de sua curta vida foi amigo do casal Shelley, mas depois de um tempo a convivência se tornou insustentável; e com a morte de Percy, se viu obrigado a ajudar a viúva, Mary... [sim, a criadora de Frankenstein...] Após um período de calmaria e estabilidade financeira e vivendo na Grécia, Byron se vê apaixonado de maneira não correspondida por um rapaz, seu pajem. Seus amigos adoecem, inclusive Loukas, seu objeto de afeição. Quando ele mesmo contrai uma febre, percebe que é o fim. Em 19 de abril de 1824, enquanto lutava na guerra pela independência da Grécia, falece. Seu corpo foi transladado para a Inglaterra e seus restos mortais encontram-se na abadia de Newstead, que outrora pertenceu a sua família... 

Lord Byron foi um poeta ao qual o ato de escrever era o mesmo que dizer algo de si próprio, e que viveu entre duas eras de pensamentos paradoxais. Como Sade o foi antes, possuía um espírito libertino, mas soava tardio se comparado a vanguarda da liberdade sexual moderna-contemporânea... Entretanto, não podemos negar a exuberância incomum de seus escritos, que encontra-se em escassez nos poetas atuais... 

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17 comentários:

  1. Olá
    eu não conhecia o autor, mas acho ótimo poder divulgar sobre ele, especialmente para quem, assim como eu, ainda não tinha conhecimento de seu trabalho. Adorei seu post e com certeza irei procurar mais informações a respeito.
    beijos, Fer

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  2. A primeira vez que ouvi falar em Byron, foi no filme Sociedade dos Poetas Mortos e como é um dos meus filmes favoritos da vida, tratei de ir atrás do peta. Na época, li e não me conectei com as poesias e deixei pra lá. Agora, lendo a sua resenha, me deu muita vontade de reler e acho que nos dias de hoje, funcionaria melhor.
    Obrigada pelo post, foi providencial e nostálgico.
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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  3. Olá!
    Já ouvi muitos elogios para o Byron, mas nunca senti vontade de ler nada dele. Após ler sua resenha sinto que o meu gosto não é compatível com o que ele escreve e não fiquei interessada em ler. Entretanto, é preciso dizer que ele escreve de uma forma exuberante, como você disse.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  4. Ola não conhecia o livro e confesso que a premissa não me atraiu muito, mas irei pesquisar mais sobre o livro, quem sabe saio de minha zona de conforto e leia. Fico feliz que a leitura foi gratificante para você. beijos

    Joyce
    www.livrosencantos.com

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  5. Olá!
    Eu conheço Byron só por nome, mas sua resenha me fez ver o quanto dele há em suas poesias.
    Eu, sinceramente, não me sinto atraída pelo gênero, mas acho uma ótima pedida para quem curte poesia. Gostei de saber que melancolia, morte e ironia são constantes na obra de Byron. Fico feliz que você tenha gostado da leitura!
    Beijos!

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  6. Olá
    Eu desconhecia o escrito,e devo isso ao fato de não acompanhar esse pessoa que publica coisas do tipo. Que vida agitada foi a dele não é mesmo? Achei que foi muito bem vivida. Achei bem linda essa capa! Quanto ao livro, eu acho que não estou no monto para ler algo do tipo,mas fiquei bem interessado na obra, pois me parece ser super interessante! Até mais vê
    Bjs

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  7. Gostei principalmente da parte dele ter usado como taça de vinho um crânio humano kkk
    Nunca me senti interessada pelo que ele escrevia, não gosto muito de poesia, e tratar de melancolia e morte não é comigo (só ironia, amo ironia)!
    Vi em um dos comentários anteriores sobre o filme Sociedade dos Poetas Mortes, e fiquei bem curiosa para conhecer o filme... Vou pesquisar mais sobre as ombras dele, e ver se desperta meu interesse. Obrigada pela indicação, quem sabe assim não passo a ler livros desse tipo?

    Beijinhos...
    Desencaixados

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  8. Eu não sou fã de poemas e poesias mas eu adoro esses posts clássicos que retratam melancolia e trazem mais poesias sombrias. E Byron é um desses autores que me fascina por isso adorei a dica desse livro e já o adicionei na minha lista.
    Bj

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  9. Olá amore,
    Acho seu blog tão exótico s2
    Curto muito poesia, acho que nos faz ter diversas interpretações no decorrer da leitura... Parece ser um livro bem pensante... no momento busco algo mais ligth...
    Parabéns pela resenha belíssima
    Beijokas!
    www.facesdeumacapa.com.br

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  10. Oi Val,
    Essa obra eu também , não conhecia. Curti muito, como sempre, a maneira que tu estruturou a tua resenha, mas dessa vez a obra não despertou muito o meu interesse, por isso dessa vez deixo a indicação passar. Ainda assim tenho certeza de que é uma leitura muito rica para os leitores mais interessados nesse tipo de obra.

    Beijos

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  11. Hey!
    Uma coisa que eu admiro no seu blog é o fato dos seus posts serem bem diferenciados. Gostei de conhecer o livro e um pouco sobre o autor, pois não fazia ideia da sua existencia. Eu não sou uma grande fã de poesia, mas quando eu entendo o que elas querem passar, me sinto completamente apaixonada, e essas sensações são simplesmente ótimas. Gostei do post.
    Um abraço!

    https://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

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  12. Oi, tudo bem?
    Eu não conhecia o autor e confesso que não costumo ler poesias, mas gostei bastante do seu post, pois deu para ter uma noção sobre o autor e sua obra. No entanto, não é algo que eu pretendo ler agora, mas quem sabe um dia.

    Beijos :*

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  13. Oi!
    Eu não conhecia o autor a que a obra se refere, principalmente porque não leio muito classicos ou poemas, mas achei bastante interessante pela tua resenha o fato dele ser muito repleto de informações sobre o autor, e ainda ser muito bonito.
    Uma ótima indicação pra quem já conhece ele e quer ampliar seus conhecimentos

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  14. É uma leitura um tanto diferente, mas acompanho seus posts no Instagram e seu que você tem uma leitura mais clássica mesmo. Quando você falou Byron já me veio na cabeça um legado de personagem de Harlan Coben, nada a ver uma coisa com a outra, dando risadas agora. Mas este autor teve realmente uma vida atribulada.

    Beijos,

    Greice Negrini

    Blogando Livros
    www.blogandolivros.com

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  15. Olá, tudo bem? :)
    Achei a capa horrível e logo de caras fiquei sem vontade de conferir a história :/ Mesmo assim li a resenha e no entanto, continuou sem chamar a minha atenção e não seria um livro que eu leria. Definitivamente esse tipo de leitura não é para mim.
    Beijinhos
    www.fofocas-literarias.blogspot.pt

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  16. Oii, tudo bom??
    Essa capa não me chamou nada a atenção, o nome, nada. Acho que a nova literatura pede esse conjunto chamativo e como sou acostumada com isso, meus olhos não brilharam quando eu li a resenha. Mesmo assim, caso eu ganhasse o livro com certeza leria com carinho.
    Beijos

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  17. Olá! Tudo bem?
    Eu conheço o autor e já li algumas coisas dele sim. Acho a história de vida dele bem interessante, digamos assim e tenho muita vontade ler uma biografia dele!
    Amei sua resenha!
    Bj

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